Celebrar a Sacralidade da Vida

Dia 1 de Maio, celebra-se Beltane, também conhecido por “Festas do Fogo ou Festas de Maio” e é um dos mais importantes festivais solares do ano.


Este Sabbat representa a despedida oficial do inverno e marca o ponto alto da primavera, celebrando a vida em todo o seu esplendor.


A palavra 'Beltane' origina-se do deus celta 'Bel', que significa 'o brilhante' e a palavra gaélica 'teine' significa fogo.


É o momento do ano em que a terra é abraçada com a força do fogo e do calor do sol (Deus Sol ou Deus Brilhante), trazendo o simbolismo da união do Deus e da Deusa, a história de amor mais antiga da natureza.


O Sol, (Deus Bel / Belaurus — Deus Celta do Sol e da Cura), representante máximo da energia masculina renasce no Solstício de Inverno e agora regressa forte, cheio de pujança, de vida, de alegria, de esperança e de coragem para fertilizar a (Mãe) Terra, com o princípio máximo da energia feminina, que também está no seu auge de fertilidade, de exuberância, de beleza, de capacidade de manifestação e multiplicação da vida. E manifesta-se assim a união e o equilíbrio do masculino com o feminino, e toda a beleza deste amor e paixão!


É essa união sagrada, ou casamento sagrado, que permite com que todas as coisas do mundo sejam geradas.


A fertilidade dos animais e da natureza, que se encontra repleta de flores, traz a máxima expressão da renovação da vida e da energia sexual.


Segundo a tradição, Beltane iniciava-se com o acender das fogueiras, ao nascer da lua na véspera de 1º de Maio, no cimo dos montes e em lugares sagrados, para iluminar o caminho para o Verão, purificar o gado e celebrar a chegada da vida e da fertilidade.


O povo antigo unia-se nessa noite para saltar as fogueiras, como símbolo de soltar os “velhos eus” e purificar o espírito e o corpo. Depois disso, homens e mulheres encontravam-se nos bosques, passavam a noite juntos e celebravam livremente o amor. Os filhos destas festas eram considerados sagrados para a comunidade.


Quando a festa era só de mulheres – o que acontecia por vezes com as sacerdotisas – celebrava-se a plenitude e a sacralidade feminina. Resgatava-se o poder da irmandade e curavam-se feridas da alma e do corpo femininos.


Inspirados pelas celebrações da noite anterior, na manhã do dia 1 de maio, os casais passeavam-se pelos bosques e trocavam votos de amor e fidelidade por um período de um ano e um dia.



O homem colhia flores selvagens para a sua amada e entrelaçava-as numa coroa. A mulher, colhia flores de carvalho para a coroa do seu apaixonado, convertendo-se assim na representação viva da Deusa e do seu consorte. No final deste período, de um ano e um dia, o casal podia decidir terminar a relação ou continuar juntos.


Todas as uniões firmadas nessa altura eram consideradas sagradas, assim como todas as crianças assim concebidas, já que assegurava que a terra seria fértil e daria bons frutos no verão seguinte.


Ainda hoje, em Portugal, se colhem flores para decorar as casas, altares e fazer coroas para as crianças que distribuem flores de porta em porta, para receberem as bênçãos de maio (moedas). – Festa das Maias (Beja).


E, ainda hoje, na noite de São João é costume acenderem-se fogueiras e, segundo a tradição popular, deve-se saltar a fogueira para ter sorte no amor.


As fogueiras de Beltane representavam, assim, o calor da paixão, a intensidade, a interação entre a Deusa e o Deus e a crescente fecundidade da terra, o fogo do amor, da união, da fertilidade, da sensualidade e da criatividade.


A sexualidade é também homenageada. A tradição celta pedia que os homens carregassem um mastro - “Maypole” ou “Mastro de Maio” – enquanto as mulheres cavavam um buraco na Terra. Esta prática simbolizava a vagina da Deusa que recebia o mastro, ou o falo do Deus, e juntos fertilizavam a Terra.


Neste dia era erguido Maypole bem alto e nele eram atadas dezenas de fitas de todas as cores. Jovens homens e mulheres seguravam, cada um, numa fita e dançavam em círculo, enquanto cantavam e seguiam uma coreografia que ia entrançando as fitas uns nos outros em torno do mastro, repetindo o misterioso entrançar da vida, a sensualidade, o acasalamento de todos os seres vivos, a união da Deusa e do Deus, a união entre a Terra e o Céu.

Era uma celebração da juventude e do espírito da abundância.


Antigamente, em alguns países as raparigas faziam grinaldas de flores como forma de mostrarem que estavam solteiras e disponíveis para o amor. Nas celebrações de Maio quando se tratava de jovens donzelas a dançar à volta do mastro estas colocavam grinaldas de flores na cabeça. Cada flor possui um significado especial e poderes mágicos que atraem a fortuna e o amor para aquelas que as usam.


O mastro simbolizava a árvore da vida, com as raízes bem fundas e seguras na terra e os galhos bem alto, alcançando o céu.

Esta mesma árvore transforma-se no símbolo da cruz, mais tarde, pelo cristianismo.


Em Portugal, nos Santos Populares que se celebram por altura do Solstício de Verão (segunda metade de Junho) é costume erguer-se um mastro, por vezes com um boneco no topo e fitas penduradas, em torno do qual se dança.


Foi também este Sabbat que posteriormente deu origem às festas dos santos “casamenteiros” cristãos, sendo o mês de Maio consagrado à Virgem Maria, aos casamentos e ao coração, todos com forte ligação à fertilidade, nutrição, amor, abundância, nascimento e maternidade.


Beltane é um dos poucos festivais pagãos que sobreviveu da época pré-cristã até hoje e, em sua maior parte, na forma original. É baseado na Floralia – um antigo festival romano dedicado a Flora, a deusa sagrada das flores, que acontecia de 28 de Abril a 2 de Maio, em que se festejava o florescimento das flores e as cores com que a Natureza se revestia.


A Florália celebrava Artémis e Afrodite e os celtas celebravam as deusas sensuais.


O cristianismo dedicou o mês de Maio a Maria, numa tentativa de manter a tradição feminina a esta época do ano. Em algumas partes do nosso país, as pessoas deslocam-se à igreja todos os dias e rezam-se o terço em grupo a Nossa Senhor. No final, as meninas presentes circulam pela igreja vestindo uma túnica branca, no regaço da qual as pessoas vão deitando as flores, que são depois oferecidas à santa. É também no primeiro domingo de Maio que se celebra-se o dia da Mãe.


Para além, das fogueiras e do mastro, era também tradição fazerem-se oferendas a Poços Sagrados (simbolismo da Deusa), pedindo proteção e boa sorte, para que os meses que virão sejam abundantes e plenos de fartura.


Em Glastonbury, por exemplo, os símbolos masculino e feminino são a pedra e a água respetivamente, reverenciados como paternidade e maternidade. Tor como masculino, o Poço Sagrado como feminino.


Em tempos, a primeira água retirada de um poço em Beltane foi vista como especialmente potente, assim como o orvalho da manhã de dia 1 de Maio.


Ao amanhecer, as donzelas rolavam no orvalho ou lavavam o rosto com ele. Por vezes era também coletado numa jarra, deixado à luz do sol e depois filtrado. Pensava-se que o orvalho aumentava a atratividade sexual, mantinha a beleza e a juventude e ajudava nas doenças de pele.


Em Beltane abrimo-nos ao Deus e à Deusa da Juventude. Não importa a nossa idade, a primavera sempre nos faz sentir jovens na alma e em Beltane saltamos sobre os fogos da vitalidade e permitimos que nos preencha a alma e nos cure e reequilibre.

Beltane é considerado o Portal da Vida, como Samhain, na outra metade do ano, marca o Portal da Morte. É na dança perfeita e dinâmica entre estes dois pilares que se desenrola a existência.


Não é por acaso, que astrologicamente o Sol encontra-se a transitar no Signo de Touro, um signo associado à fertilidade, à nutrição, ao desfrute, ao prazer, à sensualidade e à conexão com cinco sentidos, pelo que as celebrações de Beltane eram assinaladas com banquetes, jogos, poesia, cânticos, danças sagradas e rituais, em honra do poder de criação fertilizador do Divino Feminino. Era uma festa de alegria e celebração da vida.


Este é um festival profundamente sensual, direcionado à autoestima, à confiança, à realização pessoal a níveis emocionais e sexuais.


Simbolicamente, a Deusa atinge a plenitude, enquanto mulher e amante. O jovem Deus, atinge também o auge da sua virilidade. Em pleno Beltane, ambos se juntam para celebrar o hiero-gamus, o matrimónio sagrado.


É tempo de soltar as velhas feridas, de nos apaziguarmos com as partes de nós que já não servem e despertar para o esplendor de quem somos. Abrir o coração e clamar pela nossa própria luz.


Apaixonarmo-nos e conectarmos com a sensualidade da vida e desfrutar do tempo, do alimento, do amor e da sexualidade.


Beltane surge como símbolo profundo da sacralidade da Vida.


Os ciclos externos são reflexos profundos dos nossos processos físicos, psicológicos e emocionais.


Beltane é tempo de acender o fogo criador dentro de nós, manifestando os nossos sonhos e desejos de forma equilibrada.


Em Beltane, é tempo de tomar total consciência das nossas forças criativas, de meditar nos aspetos masculino e feminino dentro de cada um de nós. Quão bem interagem? Quão bem comunicam um com o outro? Como manifestamos a nossa criatividade nas nossas relações? E na nossa relação com o mundo? É tempo de nos alinharmos com as energias crescentes no mundo aparente para darmos um boost na nossa criatividade e vitalidade, e no nosso equilíbrio interno.

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